Por que nós podemos escrever

O título eu tomei emprestado do Henry Jenkins, que nomeou um capítulo do seu livro “Cultura da Convergência” como “Por que Heather pode escrever”. O livro se preocupa em analisar as novas práticas sociais que estabelecemos com os novos meios de comunicação, em especial a internet, e como essas mudanças afetam nossa relação com as mídias e a informação.

No capítulo sobre a Heather, ele expõe o caso de uma menina de 13 anos que criou o The Daily Prophet, um jornal fictício publicado na internet com notícias sobre a escola de Hogwarts, aquela do Harry Potter. Crianças do mundo inteiro fazem parte da equipe de “repórteres” que alimentavam o site com histórias e personagens que compartilham o universo fantástico dos livros de J.K. Rowling.

Claro que não demorou muito para o site entrar em conflituosas discussões sobre direitos autorais e proteção de propriedade intelectual e pouco se falou sobre o processo de letramento do qual Heather estava impulsionando os milhares de leitores de Harry Potter. Em outras palavras, essa disputa objetivava controlar a participação dos fãs na cultura, limitando os meios de expressão.

Atingindo um universo mais amplo, outra forma de controle tem sido avaliada por governos internacionais, só tornada pública por pressão de grupos da sociedade civil e alguns parlamentares. Trata-se do ACTA – Acordo Comercial Anti-Falsificação –, documento que restringe e mercantiliza o intercâmbio de cultura, além de (mal) avaliar a criação e circulação de ideias, debates e produtos intelectuais. De certa forma, enquadra sob o conceito de “escala comercial”, não apenas o que tem “motivação direta ou indireta de ganho financeiro”, mas “qualquer sistema de grande amplitude”, como o da Heather, por exemplo. É uma decisão delicada, uma vez que atinge iniciativas potencializadores de inclusão e participação cultural nos meios digitais.

O dossiê foi divulgado pelo Le Monde Diplomatique que enfatiza os riscos à produção e participação nos processos criativos. “As grandes corporações que comercializam produtos culturais querem colocar fora da lei aqueles que os oferecem gratuitamente. É uma ameaça, a longo prazo, até mesmo a serviços como o Google”, informa o texto. Paralelamente movimentos estão sendo criados para disponibilizar o conteúdo do documento e fomentar ações contra sua validação. Na página, vários links para se informar mais e tomar parte da discussão.

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